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Noites insones


Fim de Domingo Santo, Refleti-vos!

Fim de Domingo Santo, Refleti-vos!

O que fazer com o fim de cada domingo? Uma boa pergunta, já que a opção natural a qualquer programação moderna, sentar diante da televisão, tornou-se impossível nesse horário. Diante disso, muitas boas idéias podem vir à mente, nem me atrevo a questioná-las. Entretanto, estou disposto a lançar um desafio, o qual - por orientação do meu marqueteiro - vem em tom positivista, no climão da semana-que-um-dia-foi-santa: Fim de domingo, refleti-vos!

A proposta, por si só, já nasceu de uma dessas reflexões e, se nada mais der certo, já me dou por satisfeito com ela. Simples assim: fim de domingo, todos a pensar um pouco. Vale qualquer coisa. Poderíamos, quem sabe, criar um "reality show". Juntos em uma casa um homossexual masculino caricaturesco, um espantalho, um ator de filme pornográfico, cinco lesmas no cio (diferentes entre si como só cinco lesmas no cio podem ser) e, até ousadamente, uma anta com diploma em Medicina (porte de arma ideológico, se houvesse alguma ideologia). Todos em uma sala HERMETICAMENTE fechada. O que sufocasse por último sagrava-se vencedor. Primeiro prêmio, um fim de domingo com Veríssimo. Mesmo vencendo o espantalho, o último capítulo valeria a pena pelo Veríssimo. Isso sem desmerecer o sucesso fogo-de-palha (licença! um trocadilho) que o espantalho faria junto ao público global.

A idéia surge justamente em um fim de domingo pós-plantão. Desses cansativos, no qual se pode escrever aproveitando os cochilos do superego. O mote repousa na emergência em que o mundo virou. Não a emergência da dor-de-dente das três da matina, do cidadão que não consegue dormir (e procura por solidariedade médica na madrugada) ou do menino que "perdeu o choro". A emergência das condutas padronizadas, das doses previamente calculadas, do ATLS, ACLS, enfim, da prontidão. Aqueles momentos em que agimos antes de pensar. Sempre alertas. Assim, tentam nos convencer a não errar.

O porém mora ao lado. Fora do plantão. À nossa volta, tudo parece agir e sequer existe o trabalho de pensar depois. As frases prontas, os sorrisos ensaiados, o texto da novela, a música tosca, a gola em vê, a cor da moda, as futilidades que preenchem o vazio dos seres cada vez menos humanos. Sem reflexão, nem dá para sentir.

Pressão de todos os lados. A grande vergonha em errar. Vaias coletivas. A impossibilidade de reconhecer as falhas bane o pedido de desculpas. Surge o enfrentamento. Comportamentos duvidosos transmutam-se em excentricidades e pensar passa a ser chato. Assim, aparenta-se mais fácil seguir adiante. Mesmo a vida - que clama pelo sofrimento recorrente, pela batalha pessoal, pela superação - pode soar tão simples nas telinhas e telonas, quando enfiada goela abaixo. Tudo pretensamente novo em cada capítulo das seis, sete, oito, em cada enlatado, em cada livro de auto-ajuda.

Creio, apesar de reconhecer claramente os benefícios no meio médico, que as atitudes preconcebidas podem ajudar mais se aliadas à criatividade. Respeitar nossos preconceitos, mas questioná-los sistematicamente para melhor adaptá-los, evoluí-los. Aquele que pensa mais, tende a pensar mais rápido. Ser criterioso. É o famoso bom-senso, impossível de ser mensurável, mas tão presente que nos empurra.

Idéias empolgantes para terminar cada domingo chato. É a minha proposta. Mais movimentos pensados, palavras escolhidas, diálogos amadurecidos. Um com o outro, um com um, um com todos. Conhecermo-nos. Encontrar nossas falhas. Identificar tantos dos nossos erros que insistimos em subdiagnosticar. Evoluir. Com o decorrer, talvez passemos a assinar menos receitas azuis (são tantas!). Para um bom início, refleti-vos. Em toda semana (santa ou não), há pelo menos um fim de domingo.

Anderson Armstrong



Escrito por Anderson e Alfredo às 19h26
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A Volta

Alguns sabem, pois já trabalharam muitas horas seguidas de plantão. É como viver outras vidas, já que a sua congela no primeiro degrau da entrada dos fundos, junto ao estacionamento. Ter várias vidas, algumas vezes simultaneamente, em que a morte nunca é o final. A bem da verdade, a morte passa a ser mais um diagnóstico.

Raramente existe dor em dar diagnósticos, mas sempre ficamos permeados por uma tristeza que não é nossa. Sincera, mas não é nossa. Está em nós, mas não nos pertence. Em geral, dá para livrar-se dela ao passar pela porta. Entretanto, essa tristeza pode funcionar como um LSD, insistindo em aparecer em horas estranhas, provocando frio, suor, lágrimas. Penso que isso seja um dos grandes motivos da instabilidade entre os casamentos no meio médico. Toda essa tristeza descontrolada, com vontade própria. A incerteza sobre qual das vidas, como um médium incapaz de controlar seu dom. Talvez passem por algo semelhante os atores, mas eles têm permissão para enlouquecer vez em quando e tudo bem. Às vezes se matam, mas quase nunca matam alguém.

Outro dia, não consegui me livrar da danada. Passei pela mesma porta, mas ela me acompanhou. "De novo!", pensei. Comigo já não é novidade. Peguei meu carrinho nas últimas prestações, ainda com o IPVA por quitar e nem sequer pensei nisso ou naquilo. Estranhamente, não liguei o som e segui rumo à estrada de volta a casa, enfrentando com certa felicidade os cento e poucos quilômetros que afastam meu lar de um dos meus empregos. Era o último dentre os dias que emendei trabalhando, já devia ser o terceiro ou quarto da série.

Desci a estrada - estranhamente boa para nossos padrões - triste. Triste e permeado de prazer, o prazer do retorno. Era uma tarde azul. Na verdade, um fim de tarde azul. Azul tão intenso que se pretendia negro. O azul inundava a pista, invadia minha alma e continuava para trás, direita, esquerda, dava círculos e me acertava novamente, insistente, entre curtas pausas para o fôlego. Meu carro puxando um pouco para a esquerda, a noite se fazendo e eu azul, inercialmente imóvel a cem por hora. Muitas coisas passam nesses instantes, pequenas reflexões que, de tão simples, podem mudar nossas vidas.

Não devo mentir, não é minha proposta. Eu realmente gosto da estrada. Meu avô era caminhoneiro e, se Lamarck estivesse certo, teria deixado a estrada no sangue, para as futuras gerações. Seria mais simples se Lamarck estivesse certo, mas não estava. Darwin, por outro lado, inteligentemente nos ensinou que não temos pulmões por vivermos em terra e sim vivemos em terra por termos pulmões. A evolução. Eu tenho pulmões, dois, e vivo na estrada. Tragando o ar viciado dos hospitais, tossindo na estrada e indo para casa limpo.

Gosto da velocidade e de surpreender-me desacelerando ao pensar no meu filho, o qual ainda está por vir. Gosto das retas e do inesperado que me aguarda ao fim de cada curva. O inevitável, o evitável, as fatalidades, a imprudência, os batimentos acelerados, as freadas histéricas, o inferno e a paz, tudo junto, entre o meio-fio e o acostamento. E quando estou azul é que a perspectiva assusta. Se viajasse de ônibus, talvez pudesse perceber melhor o que vai além, mas – certamente – estaria mesmo é dormindo, ouvindo música e evitando o papo chato do cara fedorento ao meu lado.

Meu celular estava sem bateria, o que me conferia uma paz, imagino, celestial. Desordenadamente, pensei muitas coisas. Decidi, por exemplo, qual seria meu terceiro livro, com título e tudo. Tudo bem que ainda não escrevi o primeiro nem o segundo, mas o mais difícil já fiz, tomei a decisão. O primeiro, como não poderia deixar de ser, de poemas. O segundo, um romance de época. O terceiro...tan, tan, tan, tan... o terceiro sobre Medicina. Na verdade, sobre ser médico. Não me acho um gênio das letras, mas a realidade é que preciso escrever. Ser lido deve ser bom, mas escrever é uma necessidade. Deliciosamente árdua, como um parto normal. Devo ter pensado coisas mais produtivas, mas, essas, fiz questão de esquecer. Decidi que vou continuar a escrever e pronto, leiam ou não.

Meu carro roncava, as vacas mugiam (não podia ouvir, mas certamente mugiam). O céu, azul, depois violeta e, enfim, negro. Liguei o farol e segui. Rumo ao meu destino, seja lá qual for. Não sei onde vou parar, sei que não estarei só. Minha mulher grávida, um filho, um menino, sei que não mais estarei só. Eterno quero estar, nos seus olhos, seu franzir de testa ou, quem sabe, nas suas idéias.

Todo aquele azul me levava a ele e estranhei ao perceber a presença sombria da tristeza. A mesma de sempre em um momento tão sem par, por quê? A tristeza do velho morto, a da criança doente, a do parto cesáreo, a do choro de dor verdadeira, a do acordar na madrugada, a do bêbado com dor de dente, a da adolescente boba, a da estrada. Simplesmente não combina. Se é meu filho produto meu, será ele, de certa forma, fruto de todo esse azul? Será ele piloto, marinheiro ou - com sua ajuda, Lamarck - médico? De qualquer forma, que Deus more em seu coração e que Darwin o abençoe.

Acho que ninguém vai rir nesse texto. Também não era essa a intenção. Só espero que ninguém sofra mais por causa dele. Também acho que não tenho todo esse talento literário para fazer sofrer. Enfim, será esse texto lido? Às vezes espero que não.

A cidade dos arrecifes e dos rios sujos surge com seus prédios altos no fim da estrada e a tristeza me deixa. Se me perguntarem como foi possível, respondo que foi mágica. Os encantos da iluminação amarelada das esburacadas ruas do meu Recife, o cheiro do mar e os beijos que costumam preceder as gloriosas noites de amor.

É! Certamente não foi para sorrir. Foi calmo, estranho, mas me fez um bem danado. Que seja lido!

Anderson Armstrong



Escrito por Anderson e Alfredo às 02h02
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Domingo, 03 de outubro de 2004.

Domingo de Folga

Dia de votação é a cara desse país. Ninguém respeita porra nenhuma. Não pode beber e todo mundo enche a cara; não pode fazer propaganda e a cidade inteira fica um lixo de papelinhos com a cara dos caras; não pode isso; não pode aquilo e todo mundo faz o que quer.

O trânsito é uma merda infalível. Estou gripado, dormi pouco e minha cabeça não pára de latejar. Meu carro há horas parado em um cruzamento. Sinal verde, amarelo, sinal vermelho, verde de novo, amarelo, vermelho... o carro de trás começa a buzinar e é logo seguido por mais dois. Tudo isso embaixo de um sol de meio de tarde nordestina. Inferno.

A rua está cheia de bicicleteiros (isso mesmo, bicicleteiros. Guardam poucas relações com os ciclistas), uns carregando bandeiras, outros sorrindo. Ultrapassam-me e vão seguindo até os perder de vista. Eu ainda estou lá no mesmo cruzamento. Passa um grupo de motobicicleteiros, todos decorados com os nomes de uma mulher de que nunca ouvi falar, bandeiras, camisas, adesivos. Recosto minha cabeça no banco, tentando evitar as buzinas incessantes, mas sou logo despertado por um dos motobicicleteiros que arrancou meu retrovisor. Filho da puta. Abro rapidamente o vidro para identificar e insultar o cara, quando uma morena com camisa de candidato amarrada no umbigo aproveita para jogar um punhado de papelinhos dentro do carro e, depois, sumir na multidão. Ajeito o retrovisor, danos mínimos. Subo novamente os vidros. O ar-condicionado está vacilante.

Consigo sair vivo do piquete. Vamos lá. Dever cívico. A esquina vai ficando para trás e posso ver os cabos eleitorais contratados tomando uma em uma kombi-bar degradante. Uns saquinhos de sanduíche no colo de uma propagandista de mau humor e uma centena de pessoas em direção à praia sorridentes. Domingo. Praia.

Os custos de uma eleição. Para mim, um Domingo. Para a cidade nem se fala, com toda a sujeira nas ruas, nos postes, nas praias. Para o povo, a máquina do poder, girando as engrenagens pesadas para um, outro ou dois lados. Para os bêbados, a possibilidade fingida da abstinência. Para a moral; bem, não dá muito pra falar de moral em época de eleição. Já os caras da boca-de-urna ganham tabelado. Quinze com lanche e vinte sem. Chego cada vez mais à conclusão de que os médicos são os únicos incapazes de se organizar.

Eu ainda estou tossindo, com nariz escorrendo e o corpo todo moído. Tento dobrar na rua próxima ao meu destino, nas não consigo. Tem carro em todo o lado. Dois guardinhas de colete brilhoso conversam alegremente com uma propagandista, ignorando-me. Um deles finalmente olha para mim e faz sinal de que não posso dobrar. Os caras mudaram o trânsito, não colocaram uma placa, não ficaram orientando e ainda estão batendo papo com uma mulher que faz boca-de-urna descarada. Meu Brasil brasileiro. Vou cantar-te nos meus versos.

Não tem espaço. Os flanelinhas fazem sinal para que pare em frente às garagens ou sobre as calçadas. "Tem bronca não. Hoje os home num increnca". Saio pisando na cara sorridente de um milhão de candidatos entre o meu carro (parado em local proibido) e a entrada do colégio em que voto. Sou recebido pelo labirinto de votação, com setas e numerais decimais impronunciáveis desorientando os eleitores.

Acho minha mesa. A única com fila. Bem verdade que a fila era pequena, mas existia. Na minha frente um garotão ansioso, conclui que era a primeira vez. Tive vontade de dizer que a primeira não é a melhor, mas limitei-me a fungar o nariz e olhar o escândalo que a velhinha estava fazendo ao sair da mesa de votação. Tudo porque não apareceu a foto do candidato na tela. Veio logo uma galega com um crachá do "Vota Brasil" toda aflita explicar que a senhora havia apertado o botão "confirma" muito rápido e não havia dado tempo da foto surgir. A velhinha não se conformava e atrapalhava a fila, mas uma filha consciente acalmou-a, levando-a (ainda em protestos) logo em seguida. Os caras da mesa se entreolharam com sorrisinho no canto da boca. Certa estava a velhinha. Botou quente e os cara se cagaram todinhos. A galega-chefe é que veio tentar resolver. A velhinha não era muito de democracia. Minha vez. O presidente da mesa tem uns cinco brincos, os olhos pintados e está de saia estampada. Que porra é essa? Estou em Recife ou em Marte? Se tudo é mesmo uma piada sem graça, vou acabar votando é no Bussunda.

Voto. Na esquerda, pra variar. Em um médico, pra ser mais diferente ainda. Pelo menos meus candidatos ganharam, coisa com a qual ainda não me acostumei. Volto ao meu carro, desviando da panfletagem e escolhendo sem muito critério as carinhas sorridentes em que pisava. Todos os anos todo mundo vota nos mesmo caras que nunca fizeram nada, só para não precisar mudar os xingamentos e as esculhambações públicas nos próximos quatro anos.

Chego ao carro e sou abordado por um flanelinha diferente. Sei não, mas acho que eles também dividem horários. Olho para a cara dele, penduro pra próxima e vou embora, deixando mais um trabalhador informal infeliz. Na minha opinião esses caras foram treinados pela Máfia Siciliana. "Dá um trocado para eu proteger teu carro de mim mesmo". E ainda reclamam dos meus vinte e cinco centavos.

É, vou voltar para casa. Na próxima conto como foi um plantão em dia de eleição grande. Todo mundo bêbado, obviamente. Mas hoje estou de folga e quero descansar com minha gripe e com minha mulher ainda-não-gripada. Não sei que cacete acontece comigo que ainda passo o resto da noite vendo os resultados da eleição pela Internet e comentando com os especialistas de todos os programas sobre o pleito. Acho que é resquício da minha época de movimento estudantil, mas isso já é outra história. Agora, vou tomar meu descongestionante e dormir.

ACA     



Escrito por Anderson e Alfredo às 00h29
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Apresento-lhes Don Raton.

Don Raton, dois bêbados e uma tia neurótica

 

Sete da noite, mais um dia se foi, mais uma noite por vir. Infeliz.

Termino meu jantar cutucando os restos mortais do peito de frango frio que já encarara no almoço. Lavoisier. Sempre certo aquele filho da puta comunista.

Passos descompassados me levam ao quarto dos médicos. Quase sorrio ao lembrar a companhia que me espera. Meu arqui-inimigo e maior companheiro de plantão. Filho dileto da quinta geração de roedores do arquivo principal do Hospital de Todos os Santos, nesta merda de cidadezinha, longe do meu travesseiro com estampas do Bat-man alvejado pela nega velha. Don Raton, eis o nome.

Abro apressadamente a porta do quarto. Num primeiro instante, o Cabeça de Porco (carinhoso apelido do aposento médico) aparenta a tranqüilidade de um barulho de ar-condicionado. Porém, um olhar mais atento revela a silhueta esguia do mal. Don Raton ainda deu uma última pirueta, deixando transbordar pelos seus bigodes uma última lasca do requeijão caseiro que a tia-avó de Dona Josefa (paciente insuportável) havia-me presenteado no fim da tarde.

- Filho da puta! Disse a quem quis ouvir.

Corri em sua direção, mas o covarde refugiou-se no duto de ventilação que leva ao arquivo principal. Mais um filho da puta pôde ser ouvido naquele quarto antes que alguém pudesse me ver ajoelhado, ofegante, frente ao duto de ventilação a encher o maldito orifício com pequenos bolinhos de receituário descuidadamente amassados e revestidos por quase uma dúzia de folhas de prescrição borradas. O fim do árduo serviço foi acompanhado pela magnífica sensação de alívio que hoje reconheço nos tolos.

Carmecreide, a auxiliar de enfermagem escrota, abriu a porta do quarto (sem bater, obviamente) ainda em tempo de flagrar-me sobre os joelhos, deleitando-me com minha obra de contenção. Não perderei tempo descrevendo o meio sorriso a mim desferido, seria indescritível a reprovação irônica.

Carmecreide lançou, já se virando:

- Três pacientes, doutor!

Poderia rebatizar de Calvário o corredor que me empurra ao consultório. Chego trôpego, já é madrugada e abrem-se as portas do inferno. Da cabeça dos dois homens sem camisa e da gorda senhora com o recém-nascido em punho crescem orelhas pontudas que me lembram do Don Raton. " Filho da puta" as palavras quase saltam pelos meus lábios. Caminho por entre os desesperados sentindo-me um igual, acompanha-me o olhar empalhado na fotografia da velha funcionária morta há anos. "Merda!" (pensamentos não ofendem).

- Boa noite, senhora. Perguntei, sentando-me. Já a conhecia de vista, mulher de meia idade, sorriso frouxo. Seu filho, 27 anos, barbado. Dor no estômago, bebe e fuma maconha todos os dias.

- Bebe o quê?

- Cana, doutor.

- Já fez o exame da borracha que lhe pedi da última vez?

- Não, ele tem medo.

- Medo de quê? Buscopam com Cimetidina pra cima. A cara de felicidade da mãe ao ver que o filho tomaria aquela injeção milagrosa.

- Próximo.

Olho pro relógio 1h20m, sinto um cheiro estranho de camarão ao molho de coco. Enquanto outro bêbado senta com um sorriso inevitável à cadeira, estimulo meu paladar de sofredor e percebo um gole gelado de um uísque qualquer. É um queimor que começa no estômago e sobe pelo peito. Bêbados solitários se juntam a médicos infelizes, sempre foi assim e sempre será. Formamos um clã. Cada um com seu vício.

A tia do recém-nascido há dois dias diz que já criou seis crianças. O RN chora e há doze horas não consegue mamar o leite escondido entre a musculatura peitoral de sua mãe. A tia prontamente arrota o diagnóstico: otite média aguda no ouvido esquerdo. É , doutor, aperte o ouvidinho dele para ver se ele não chora. Olho novamente para meu punho, que além de sitiar um balé popular das artérias, consta 2h 33m. Agradeço a Deus por estar aqui trocando experiências tão fantásticas e prometo ir assistir ao novo filme do Pe. Marcelo Rossi sobre João, o anti-cristo.

Retorno triunfante ao Cabeça de Porco. Parece-me tão agradável sair do consultório quanto uma bela manhã de sábado (em que estou, invariavelmente, dormindo).

Vou ouvir, finalmente, meu disk-man e ler a última edição do Pasquim. A tão sonhada glória.

O quarto aproxima-se. Não sei porque teimo em abrir a porta bruscamente. Coube-me assistir a uma das mais toscas cenas dos piores capítulos da minha vida. Don Raton está deitado no meio do quarto. A barriga estufada, bigodões recolhidos. Juro que o ouço roncar satisfeito.

- Filho da Puta! Ponho-me em sua direção como um anabolizado atleta olímpico dos 50 metros, mas nem chego a vê-lo atravessar o buraco que fez na minha muralha de papel.

Dou-me por vencido. Ele merece. Venceu a mente superior. Permito o buraco na muralha como um troféu ao melhor dos plantonistas. Agora só me resta o Gilberto Gil. Coloco os fones e derrubo minha cabeça pesada sobre o travesseiro. Enfim, "play". Como nada ouço, "play"! Insisto, "play"!! "play"!!! "play"!!!! "play"!!!!! "play"!!!!!! É a pilha.

Arremesso os fones de ouvido a quilômetros quando novamente Carmecreide entra triunfante.

- Doutor, tem mais três. Sim, - completou – além disso a mulher com o bebê voltou e está discutindo com o bêbado que ainda não foi embora.

Juro que ouço risos. Só pode ser Don Raton.

- Filho da puta!



Escrito por Anderson e Alfredo às 20h53
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