Apresento-lhes Don Raton.
Don Raton, dois bêbados e uma tia neurótica
Sete da noite, mais um dia se foi, mais uma noite por vir. Infeliz.
Termino meu jantar cutucando os restos mortais do peito de frango frio que já encarara no almoço. Lavoisier. Sempre certo aquele filho da puta comunista.
Passos descompassados me levam ao quarto dos médicos. Quase sorrio ao lembrar a companhia que me espera. Meu arqui-inimigo e maior companheiro de plantão. Filho dileto da quinta geração de roedores do arquivo principal do Hospital de Todos os Santos, nesta merda de cidadezinha, longe do meu travesseiro com estampas do Bat-man alvejado pela nega velha. Don Raton, eis o nome.
Abro apressadamente a porta do quarto. Num primeiro instante, o Cabeça de Porco (carinhoso apelido do aposento médico) aparenta a tranqüilidade de um barulho de ar-condicionado. Porém, um olhar mais atento revela a silhueta esguia do mal. Don Raton ainda deu uma última pirueta, deixando transbordar pelos seus bigodes uma última lasca do requeijão caseiro que a tia-avó de Dona Josefa (paciente insuportável) havia-me presenteado no fim da tarde.
- Filho da puta! Disse a quem quis ouvir.
Corri em sua direção, mas o covarde refugiou-se no duto de ventilação que leva ao arquivo principal. Mais um filho da puta pôde ser ouvido naquele quarto antes que alguém pudesse me ver ajoelhado, ofegante, frente ao duto de ventilação a encher o maldito orifício com pequenos bolinhos de receituário descuidadamente amassados e revestidos por quase uma dúzia de folhas de prescrição borradas. O fim do árduo serviço foi acompanhado pela magnífica sensação de alívio que hoje reconheço nos tolos.
Carmecreide, a auxiliar de enfermagem escrota, abriu a porta do quarto (sem bater, obviamente) ainda em tempo de flagrar-me sobre os joelhos, deleitando-me com minha obra de contenção. Não perderei tempo descrevendo o meio sorriso a mim desferido, seria indescritível a reprovação irônica.
Carmecreide lançou, já se virando:
- Três pacientes, doutor!
Poderia rebatizar de Calvário o corredor que me empurra ao consultório. Chego trôpego, já é madrugada e abrem-se as portas do inferno. Da cabeça dos dois homens sem camisa e da gorda senhora com o recém-nascido em punho crescem orelhas pontudas que me lembram do Don Raton. " Filho da puta" as palavras quase saltam pelos meus lábios. Caminho por entre os desesperados sentindo-me um igual, acompanha-me o olhar empalhado na fotografia da velha funcionária morta há anos. "Merda!" (pensamentos não ofendem).
- Boa noite, senhora. Perguntei, sentando-me. Já a conhecia de vista, mulher de meia idade, sorriso frouxo. Seu filho, 27 anos, barbado. Dor no estômago, bebe e fuma maconha todos os dias.
- Bebe o quê?
- Cana, doutor.
- Já fez o exame da borracha que lhe pedi da última vez?
- Não, ele tem medo.
- Medo de quê? Buscopam com Cimetidina pra cima. A cara de felicidade da mãe ao ver que o filho tomaria aquela injeção milagrosa.
- Próximo.
Olho pro relógio 1h20m, sinto um cheiro estranho de camarão ao molho de coco. Enquanto outro bêbado senta com um sorriso inevitável à cadeira, estimulo meu paladar de sofredor e percebo um gole gelado de um uísque qualquer. É um queimor que começa no estômago e sobe pelo peito. Bêbados solitários se juntam a médicos infelizes, sempre foi assim e sempre será. Formamos um clã. Cada um com seu vício.
A tia do recém-nascido há dois dias diz que já criou seis crianças. O RN chora e há doze horas não consegue mamar o leite escondido entre a musculatura peitoral de sua mãe. A tia prontamente arrota o diagnóstico: otite média aguda no ouvido esquerdo. É , doutor, aperte o ouvidinho dele para ver se ele não chora. Olho novamente para meu punho, que além de sitiar um balé popular das artérias, consta 2h 33m. Agradeço a Deus por estar aqui trocando experiências tão fantásticas e prometo ir assistir ao novo filme do Pe. Marcelo Rossi sobre João, o anti-cristo.
Retorno triunfante ao Cabeça de Porco. Parece-me tão agradável sair do consultório quanto uma bela manhã de sábado (em que estou, invariavelmente, dormindo).
Vou ouvir, finalmente, meu disk-man e ler a última edição do Pasquim. A tão sonhada glória.
O quarto aproxima-se. Não sei porque teimo em abrir a porta bruscamente. Coube-me assistir a uma das mais toscas cenas dos piores capítulos da minha vida. Don Raton está deitado no meio do quarto. A barriga estufada, bigodões recolhidos. Juro que o ouço roncar satisfeito.
- Filho da Puta! Ponho-me em sua direção como um anabolizado atleta olímpico dos 50 metros, mas nem chego a vê-lo atravessar o buraco que fez na minha muralha de papel.
Dou-me por vencido. Ele merece. Venceu a mente superior. Permito o buraco na muralha como um troféu ao melhor dos plantonistas. Agora só me resta o Gilberto Gil. Coloco os fones e derrubo minha cabeça pesada sobre o travesseiro. Enfim, "play". Como nada ouço, "play"! Insisto, "play"!! "play"!!! "play"!!!! "play"!!!!! "play"!!!!!! É a pilha.
Arremesso os fones de ouvido a quilômetros quando novamente Carmecreide entra triunfante.
- Doutor, tem mais três. Sim, - completou – além disso a mulher com o bebê voltou e está discutindo com o bêbado que ainda não foi embora.
Juro que ouço risos. Só pode ser Don Raton.
- Filho da puta!
Escrito por Anderson e Alfredo às 20h53
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