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Noites insones


Domingo, 03 de outubro de 2004.

Domingo de Folga

Dia de votação é a cara desse país. Ninguém respeita porra nenhuma. Não pode beber e todo mundo enche a cara; não pode fazer propaganda e a cidade inteira fica um lixo de papelinhos com a cara dos caras; não pode isso; não pode aquilo e todo mundo faz o que quer.

O trânsito é uma merda infalível. Estou gripado, dormi pouco e minha cabeça não pára de latejar. Meu carro há horas parado em um cruzamento. Sinal verde, amarelo, sinal vermelho, verde de novo, amarelo, vermelho... o carro de trás começa a buzinar e é logo seguido por mais dois. Tudo isso embaixo de um sol de meio de tarde nordestina. Inferno.

A rua está cheia de bicicleteiros (isso mesmo, bicicleteiros. Guardam poucas relações com os ciclistas), uns carregando bandeiras, outros sorrindo. Ultrapassam-me e vão seguindo até os perder de vista. Eu ainda estou lá no mesmo cruzamento. Passa um grupo de motobicicleteiros, todos decorados com os nomes de uma mulher de que nunca ouvi falar, bandeiras, camisas, adesivos. Recosto minha cabeça no banco, tentando evitar as buzinas incessantes, mas sou logo despertado por um dos motobicicleteiros que arrancou meu retrovisor. Filho da puta. Abro rapidamente o vidro para identificar e insultar o cara, quando uma morena com camisa de candidato amarrada no umbigo aproveita para jogar um punhado de papelinhos dentro do carro e, depois, sumir na multidão. Ajeito o retrovisor, danos mínimos. Subo novamente os vidros. O ar-condicionado está vacilante.

Consigo sair vivo do piquete. Vamos lá. Dever cívico. A esquina vai ficando para trás e posso ver os cabos eleitorais contratados tomando uma em uma kombi-bar degradante. Uns saquinhos de sanduíche no colo de uma propagandista de mau humor e uma centena de pessoas em direção à praia sorridentes. Domingo. Praia.

Os custos de uma eleição. Para mim, um Domingo. Para a cidade nem se fala, com toda a sujeira nas ruas, nos postes, nas praias. Para o povo, a máquina do poder, girando as engrenagens pesadas para um, outro ou dois lados. Para os bêbados, a possibilidade fingida da abstinência. Para a moral; bem, não dá muito pra falar de moral em época de eleição. Já os caras da boca-de-urna ganham tabelado. Quinze com lanche e vinte sem. Chego cada vez mais à conclusão de que os médicos são os únicos incapazes de se organizar.

Eu ainda estou tossindo, com nariz escorrendo e o corpo todo moído. Tento dobrar na rua próxima ao meu destino, nas não consigo. Tem carro em todo o lado. Dois guardinhas de colete brilhoso conversam alegremente com uma propagandista, ignorando-me. Um deles finalmente olha para mim e faz sinal de que não posso dobrar. Os caras mudaram o trânsito, não colocaram uma placa, não ficaram orientando e ainda estão batendo papo com uma mulher que faz boca-de-urna descarada. Meu Brasil brasileiro. Vou cantar-te nos meus versos.

Não tem espaço. Os flanelinhas fazem sinal para que pare em frente às garagens ou sobre as calçadas. "Tem bronca não. Hoje os home num increnca". Saio pisando na cara sorridente de um milhão de candidatos entre o meu carro (parado em local proibido) e a entrada do colégio em que voto. Sou recebido pelo labirinto de votação, com setas e numerais decimais impronunciáveis desorientando os eleitores.

Acho minha mesa. A única com fila. Bem verdade que a fila era pequena, mas existia. Na minha frente um garotão ansioso, conclui que era a primeira vez. Tive vontade de dizer que a primeira não é a melhor, mas limitei-me a fungar o nariz e olhar o escândalo que a velhinha estava fazendo ao sair da mesa de votação. Tudo porque não apareceu a foto do candidato na tela. Veio logo uma galega com um crachá do "Vota Brasil" toda aflita explicar que a senhora havia apertado o botão "confirma" muito rápido e não havia dado tempo da foto surgir. A velhinha não se conformava e atrapalhava a fila, mas uma filha consciente acalmou-a, levando-a (ainda em protestos) logo em seguida. Os caras da mesa se entreolharam com sorrisinho no canto da boca. Certa estava a velhinha. Botou quente e os cara se cagaram todinhos. A galega-chefe é que veio tentar resolver. A velhinha não era muito de democracia. Minha vez. O presidente da mesa tem uns cinco brincos, os olhos pintados e está de saia estampada. Que porra é essa? Estou em Recife ou em Marte? Se tudo é mesmo uma piada sem graça, vou acabar votando é no Bussunda.

Voto. Na esquerda, pra variar. Em um médico, pra ser mais diferente ainda. Pelo menos meus candidatos ganharam, coisa com a qual ainda não me acostumei. Volto ao meu carro, desviando da panfletagem e escolhendo sem muito critério as carinhas sorridentes em que pisava. Todos os anos todo mundo vota nos mesmo caras que nunca fizeram nada, só para não precisar mudar os xingamentos e as esculhambações públicas nos próximos quatro anos.

Chego ao carro e sou abordado por um flanelinha diferente. Sei não, mas acho que eles também dividem horários. Olho para a cara dele, penduro pra próxima e vou embora, deixando mais um trabalhador informal infeliz. Na minha opinião esses caras foram treinados pela Máfia Siciliana. "Dá um trocado para eu proteger teu carro de mim mesmo". E ainda reclamam dos meus vinte e cinco centavos.

É, vou voltar para casa. Na próxima conto como foi um plantão em dia de eleição grande. Todo mundo bêbado, obviamente. Mas hoje estou de folga e quero descansar com minha gripe e com minha mulher ainda-não-gripada. Não sei que cacete acontece comigo que ainda passo o resto da noite vendo os resultados da eleição pela Internet e comentando com os especialistas de todos os programas sobre o pleito. Acho que é resquício da minha época de movimento estudantil, mas isso já é outra história. Agora, vou tomar meu descongestionante e dormir.

ACA     



Escrito por Anderson e Alfredo às 00h29
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Apresento-lhes Don Raton.

Don Raton, dois bêbados e uma tia neurótica

 

Sete da noite, mais um dia se foi, mais uma noite por vir. Infeliz.

Termino meu jantar cutucando os restos mortais do peito de frango frio que já encarara no almoço. Lavoisier. Sempre certo aquele filho da puta comunista.

Passos descompassados me levam ao quarto dos médicos. Quase sorrio ao lembrar a companhia que me espera. Meu arqui-inimigo e maior companheiro de plantão. Filho dileto da quinta geração de roedores do arquivo principal do Hospital de Todos os Santos, nesta merda de cidadezinha, longe do meu travesseiro com estampas do Bat-man alvejado pela nega velha. Don Raton, eis o nome.

Abro apressadamente a porta do quarto. Num primeiro instante, o Cabeça de Porco (carinhoso apelido do aposento médico) aparenta a tranqüilidade de um barulho de ar-condicionado. Porém, um olhar mais atento revela a silhueta esguia do mal. Don Raton ainda deu uma última pirueta, deixando transbordar pelos seus bigodes uma última lasca do requeijão caseiro que a tia-avó de Dona Josefa (paciente insuportável) havia-me presenteado no fim da tarde.

- Filho da puta! Disse a quem quis ouvir.

Corri em sua direção, mas o covarde refugiou-se no duto de ventilação que leva ao arquivo principal. Mais um filho da puta pôde ser ouvido naquele quarto antes que alguém pudesse me ver ajoelhado, ofegante, frente ao duto de ventilação a encher o maldito orifício com pequenos bolinhos de receituário descuidadamente amassados e revestidos por quase uma dúzia de folhas de prescrição borradas. O fim do árduo serviço foi acompanhado pela magnífica sensação de alívio que hoje reconheço nos tolos.

Carmecreide, a auxiliar de enfermagem escrota, abriu a porta do quarto (sem bater, obviamente) ainda em tempo de flagrar-me sobre os joelhos, deleitando-me com minha obra de contenção. Não perderei tempo descrevendo o meio sorriso a mim desferido, seria indescritível a reprovação irônica.

Carmecreide lançou, já se virando:

- Três pacientes, doutor!

Poderia rebatizar de Calvário o corredor que me empurra ao consultório. Chego trôpego, já é madrugada e abrem-se as portas do inferno. Da cabeça dos dois homens sem camisa e da gorda senhora com o recém-nascido em punho crescem orelhas pontudas que me lembram do Don Raton. " Filho da puta" as palavras quase saltam pelos meus lábios. Caminho por entre os desesperados sentindo-me um igual, acompanha-me o olhar empalhado na fotografia da velha funcionária morta há anos. "Merda!" (pensamentos não ofendem).

- Boa noite, senhora. Perguntei, sentando-me. Já a conhecia de vista, mulher de meia idade, sorriso frouxo. Seu filho, 27 anos, barbado. Dor no estômago, bebe e fuma maconha todos os dias.

- Bebe o quê?

- Cana, doutor.

- Já fez o exame da borracha que lhe pedi da última vez?

- Não, ele tem medo.

- Medo de quê? Buscopam com Cimetidina pra cima. A cara de felicidade da mãe ao ver que o filho tomaria aquela injeção milagrosa.

- Próximo.

Olho pro relógio 1h20m, sinto um cheiro estranho de camarão ao molho de coco. Enquanto outro bêbado senta com um sorriso inevitável à cadeira, estimulo meu paladar de sofredor e percebo um gole gelado de um uísque qualquer. É um queimor que começa no estômago e sobe pelo peito. Bêbados solitários se juntam a médicos infelizes, sempre foi assim e sempre será. Formamos um clã. Cada um com seu vício.

A tia do recém-nascido há dois dias diz que já criou seis crianças. O RN chora e há doze horas não consegue mamar o leite escondido entre a musculatura peitoral de sua mãe. A tia prontamente arrota o diagnóstico: otite média aguda no ouvido esquerdo. É , doutor, aperte o ouvidinho dele para ver se ele não chora. Olho novamente para meu punho, que além de sitiar um balé popular das artérias, consta 2h 33m. Agradeço a Deus por estar aqui trocando experiências tão fantásticas e prometo ir assistir ao novo filme do Pe. Marcelo Rossi sobre João, o anti-cristo.

Retorno triunfante ao Cabeça de Porco. Parece-me tão agradável sair do consultório quanto uma bela manhã de sábado (em que estou, invariavelmente, dormindo).

Vou ouvir, finalmente, meu disk-man e ler a última edição do Pasquim. A tão sonhada glória.

O quarto aproxima-se. Não sei porque teimo em abrir a porta bruscamente. Coube-me assistir a uma das mais toscas cenas dos piores capítulos da minha vida. Don Raton está deitado no meio do quarto. A barriga estufada, bigodões recolhidos. Juro que o ouço roncar satisfeito.

- Filho da Puta! Ponho-me em sua direção como um anabolizado atleta olímpico dos 50 metros, mas nem chego a vê-lo atravessar o buraco que fez na minha muralha de papel.

Dou-me por vencido. Ele merece. Venceu a mente superior. Permito o buraco na muralha como um troféu ao melhor dos plantonistas. Agora só me resta o Gilberto Gil. Coloco os fones e derrubo minha cabeça pesada sobre o travesseiro. Enfim, "play". Como nada ouço, "play"! Insisto, "play"!! "play"!!! "play"!!!! "play"!!!!! "play"!!!!!! É a pilha.

Arremesso os fones de ouvido a quilômetros quando novamente Carmecreide entra triunfante.

- Doutor, tem mais três. Sim, - completou – além disso a mulher com o bebê voltou e está discutindo com o bêbado que ainda não foi embora.

Juro que ouço risos. Só pode ser Don Raton.

- Filho da puta!



Escrito por Anderson e Alfredo às 20h53
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