A Volta
Alguns sabem, pois já trabalharam muitas horas seguidas de plantão. É como viver outras vidas, já que a sua congela no primeiro degrau da entrada dos fundos, junto ao estacionamento. Ter várias vidas, algumas vezes simultaneamente, em que a morte nunca é o final. A bem da verdade, a morte passa a ser mais um diagnóstico.
Raramente existe dor em dar diagnósticos, mas sempre ficamos permeados por uma tristeza que não é nossa. Sincera, mas não é nossa. Está em nós, mas não nos pertence. Em geral, dá para livrar-se dela ao passar pela porta. Entretanto, essa tristeza pode funcionar como um LSD, insistindo em aparecer em horas estranhas, provocando frio, suor, lágrimas. Penso que isso seja um dos grandes motivos da instabilidade entre os casamentos no meio médico. Toda essa tristeza descontrolada, com vontade própria. A incerteza sobre qual das vidas, como um médium incapaz de controlar seu dom. Talvez passem por algo semelhante os atores, mas eles têm permissão para enlouquecer vez em quando e tudo bem. Às vezes se matam, mas quase nunca matam alguém.
Outro dia, não consegui me livrar da danada. Passei pela mesma porta, mas ela me acompanhou. "De novo!", pensei. Comigo já não é novidade. Peguei meu carrinho nas últimas prestações, ainda com o IPVA por quitar e nem sequer pensei nisso ou naquilo. Estranhamente, não liguei o som e segui rumo à estrada de volta a casa, enfrentando com certa felicidade os cento e poucos quilômetros que afastam meu lar de um dos meus empregos. Era o último dentre os dias que emendei trabalhando, já devia ser o terceiro ou quarto da série.
Desci a estrada - estranhamente boa para nossos padrões - triste. Triste e permeado de prazer, o prazer do retorno. Era uma tarde azul. Na verdade, um fim de tarde azul. Azul tão intenso que se pretendia negro. O azul inundava a pista, invadia minha alma e continuava para trás, direita, esquerda, dava círculos e me acertava novamente, insistente, entre curtas pausas para o fôlego. Meu carro puxando um pouco para a esquerda, a noite se fazendo e eu azul, inercialmente imóvel a cem por hora. Muitas coisas passam nesses instantes, pequenas reflexões que, de tão simples, podem mudar nossas vidas.
Não devo mentir, não é minha proposta. Eu realmente gosto da estrada. Meu avô era caminhoneiro e, se Lamarck estivesse certo, teria deixado a estrada no sangue, para as futuras gerações. Seria mais simples se Lamarck estivesse certo, mas não estava. Darwin, por outro lado, inteligentemente nos ensinou que não temos pulmões por vivermos em terra e sim vivemos em terra por termos pulmões. A evolução. Eu tenho pulmões, dois, e vivo na estrada. Tragando o ar viciado dos hospitais, tossindo na estrada e indo para casa limpo.
Gosto da velocidade e de surpreender-me desacelerando ao pensar no meu filho, o qual ainda está por vir. Gosto das retas e do inesperado que me aguarda ao fim de cada curva. O inevitável, o evitável, as fatalidades, a imprudência, os batimentos acelerados, as freadas histéricas, o inferno e a paz, tudo junto, entre o meio-fio e o acostamento. E quando estou azul é que a perspectiva assusta. Se viajasse de ônibus, talvez pudesse perceber melhor o que vai além, mas – certamente – estaria mesmo é dormindo, ouvindo música e evitando o papo chato do cara fedorento ao meu lado.
Meu celular estava sem bateria, o que me conferia uma paz, imagino, celestial. Desordenadamente, pensei muitas coisas. Decidi, por exemplo, qual seria meu terceiro livro, com título e tudo. Tudo bem que ainda não escrevi o primeiro nem o segundo, mas o mais difícil já fiz, tomei a decisão. O primeiro, como não poderia deixar de ser, de poemas. O segundo, um romance de época. O terceiro...tan, tan, tan, tan... o terceiro sobre Medicina. Na verdade, sobre ser médico. Não me acho um gênio das letras, mas a realidade é que preciso escrever. Ser lido deve ser bom, mas escrever é uma necessidade. Deliciosamente árdua, como um parto normal. Devo ter pensado coisas mais produtivas, mas, essas, fiz questão de esquecer. Decidi que vou continuar a escrever e pronto, leiam ou não.
Meu carro roncava, as vacas mugiam (não podia ouvir, mas certamente mugiam). O céu, azul, depois violeta e, enfim, negro. Liguei o farol e segui. Rumo ao meu destino, seja lá qual for. Não sei onde vou parar, sei que não estarei só. Minha mulher grávida, um filho, um menino, sei que não mais estarei só. Eterno quero estar, nos seus olhos, seu franzir de testa ou, quem sabe, nas suas idéias.
Todo aquele azul me levava a ele e estranhei ao perceber a presença sombria da tristeza. A mesma de sempre em um momento tão sem par, por quê? A tristeza do velho morto, a da criança doente, a do parto cesáreo, a do choro de dor verdadeira, a do acordar na madrugada, a do bêbado com dor de dente, a da adolescente boba, a da estrada. Simplesmente não combina. Se é meu filho produto meu, será ele, de certa forma, fruto de todo esse azul? Será ele piloto, marinheiro ou - com sua ajuda, Lamarck - médico? De qualquer forma, que Deus more em seu coração e que Darwin o abençoe.
Acho que ninguém vai rir nesse texto. Também não era essa a intenção. Só espero que ninguém sofra mais por causa dele. Também acho que não tenho todo esse talento literário para fazer sofrer. Enfim, será esse texto lido? Às vezes espero que não.
A cidade dos arrecifes e dos rios sujos surge com seus prédios altos no fim da estrada e a tristeza me deixa. Se me perguntarem como foi possível, respondo que foi mágica. Os encantos da iluminação amarelada das esburacadas ruas do meu Recife, o cheiro do mar e os beijos que costumam preceder as gloriosas noites de amor.
É! Certamente não foi para sorrir. Foi calmo, estranho, mas me fez um bem danado. Que seja lido!
Anderson Armstrong
Escrito por Anderson e Alfredo às 02h02
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